União Estável

Da coisa estável
Fica toda maleável
Mole feito vitamina
Escorre pelos dedos gozo brando

O que segura mesmo é atrito
Desafiar a tua dita
Duro feito arma
Gozo amargo de amor

Já dizia o velho ditador
Papel mole e caneta dura
Tanto outorga até que as-
sina sem nenhuma dor!

Da marca do açúcar
Repete o sabor
Nos cabelos de xampu
Sem sal

Eu quero o outro lado
De você o osso
Eu quero o oposto
Fora do quarto

cama de casal

Templo

É hora do sol se pôr bonito
Sobre a mesa, delicadamente
Pra eu pegar na palma da mão
E acender a vela de oração

E agora chegamos mais perto
Da próxima queda das flores
Do que da última

E assim me equilibro pelos trilhos do tempo

Que nunca está no centro
Varia pelos extremos do que já foi
E do que vem

Excessivo, afetado

Ora joga lâminas no meu rosto
Ora arranca as flores do ipê

Mas na safra não se colhe
Dos meus pés
Nada que eu escorro

Pelas ramas, pelo tronco

Pelo nome de onde encontro

O meu momento santo

Fuga

Algum exílio que liberte
Alguma mente imigrante
Que hoje resiste
Pois já colonizou

Alguma mão que escreva
Em língua morta – que me beije!
Because now i write
On my colonizer’s language

Algum corpo hoje nu – por querer
Que antes despido – por outra mão
Queira os meus dedos
Don’t lick me with my settlers tongue

Sob as ondas nos meus pés
E as asas do avião
Eu fujo de fronteira exilada na palavra
No mesmo mar que algum criolo não atravessou

Besta

Tentei fazer uma moderna
De brincar com algumas palavras
Tentar palavrear
Mas acontece que o que ficou
Ficou tão patético
Hoje em dia
Ser poético

Mas aí tentei parar
Arrumei essa de ficar no meu lugar
Fiquei tão bem, antes eu era besta
Mas valeu de nada me hermetificar
Pra ficar no vazio
Eu prefiro esvaziar
Me abestar
Patetizar
Sem poetizar

Legado

Morreu e me desviveu
O vácuo que a noite deixa na rua
A coberta que seria tua
E o meu ventre, de vento teu

Um pão pra amargar um gesto mais sutil
Um tropeço na palavra para o medo hostil

E eu
Sem sabor
Sigo o caminho impregnado
Pelo lugar que já cheguei

Abracei Concreto

Colhi as roupas do varal
Como quem colhe as frutas do pomar
Do asfalto quente senti úmida terra
Os poros do concreto respiram, vasculham pele minha
Pele morta, meus tecidos

Suor daquela pele, orvalho de beber

Amanheci sob os frondosos pontiagudos
Medi os passos de cerâmica
O suave toque dos minérios, chuva tépida
E assisti o sol chorar
Me calei até ele se silenciar

Me espalhei em torno do seu fogo à noite a me aquecer

Das molduras, faz margem o céu de navegar
Me amanhece, rio pra’mar
Respirei a relva, petrolato
Despertei o orgânico do seu sonho geométrico
Descansei, torpor, sobre fluidos deletérios