Do Filho

Eu perguntei
qual a porcentagem da sua força
que eu tenho
qual é a fração do meu corpo
que precisa da salvaguarda
qo seu braço magro

Você ouviu
que debaixo das suas pernas
é o apelo do ecúmeno
que de ti sou fragmento
catecúmeno

Achas que da máquina sou engrenagem
sou máquina-bicho
e quer saber?
ainda mordo
e sei que tens medo de mim

Raiz

O único grande amor que me permite a volta. Vim com as malas buscar os pingos para os i’s. Vim sem orgulho, reconhecendo que o abandono é minha culpa. Vim despida de mim. Regressar à despedida de mim mesma.
A viagem é de um ponto ao outro do próprio ser. Transformar a terra em minha. Transviar a mente mínima. Transar com o chão (lembrando de Lu Hiroshi e Kassio Pires) e amá-lo ser e sê-lo penetração enraizar meus ramos móveis. Transsexualizar o meu estado infinitivo.
Caminharei mais um pouco pelas pedras até abandonar novamente o costume dos meus pés retorcidos. Asfalto retilíneo.

O Meu Braço

Você disse espúrio
e eu me tranquei
para fora do seu cômodo
Você disse orgulho
e eu chorei por toda besta
sofredora desse mundo

Para
ser um pouco mais
do alcance para trás

Pra
viver um pouco menos
desse seu futuro ameno

Você disse métrica
e eu não ousei na réplica
de lhe mostrar sua mentira

eu ousei com a própria mão
a arrancar o próprio braço
deixando escorrer: verdade

Mas quem arrebatou
minhas pernas vasculhou

Eu
agora recolho
meus pedaços na avenida

É o nosso dever e a nossa salvação
A gente é vento. Feito de sopro e bolha em ventre. A gente sopra pelo tempo até voltar ao redemoinho do pó. A gente veste o véu que é pra não vendaval, a gente reza o terço de pedra pra não pairar. Porque vento, tornado, vento, ciclone, vento derruba se não se santificar.

Canção lapidada

Regou tanto as flores
Me afogou
Regrou tantas palavras
Que meu papel rasgou

Espero que tome
Teus pertences
Espero que beba o discurso
Que me engasgou

Não aguardo o teu adorno
Mas já quis o teu transtorno

Meu sinal no teu percurso
Em minha curva não há retorno

Ficou a pobre rima
Para o teu esforço de beleza
Que é o que arruína